As defesas do público em relação ao orador e seu discurso

Todo discurso político se constitui numa peça de persuasão em torno de um tema público que usualmente é controvertido.

1. Não esqueça nunca que a sua comunicação é interessada Partindo da realidade do eleitor, nunca será demais enfatizar a sua “postura defensiva”, em relação ao discurso do político. A própria “estrutura da situação” de uma campanha eleitoral já predispõe o ouvinte a uma posição defensiva. Todo discurso político se constitui numa peça de persuasão em torno de um tema público que usualmente é controvertido. Enquadra-se naquilo que se chama de comunicação interessada, isto é, aquela comunicação que visa levar os ouvintes a adotar uma atitude do interesse do orador. A comunicação social pode ser classificada em:

  • Altruísta – (amor, educação, religião, arte)
  • Interessada – (economia, política)

Porque é tão importante caracterizar a comunicação política como um tipo de comunicação interessada? Porque a Comunicação Interessada está na origem da maioria das características da política. Na comunicação política, A comunica-se com B porque está interessado em obter algo que este possui; e B aceita a comunicação, porque A possui algo que pode lhe interessar. A própria “estrutura da situação” de uma campanha eleitoral já predispõe o ouvinte a uma posição defensiva, comumente de ceticismo, quando não de franca hostilidade ao orador e à sua mensagem. Na dinâmica da campanha, muitas vezes esquece-se dessa realidade. Em consequência a comunicação política da candidatura toma um rumo, que é rejeitado pelo eleitor.

2. Não basta pois, conquistar a atenção. É preciso desmobilizar a desconfiança A comunicação interessada traz consigo além da atenção que possa despertar, a nítida percepção do interesse egoísta do orador. Essa percepção conduz a uma natural reação de defesa do eleitor, sob a forma de desconfiança, ceticismo e “sovinice”, em relação à entrega do recurso cobiçado pelo orador (voto). O político reage à essa resistência, revestindo a sua busca do voto numa causa nobre, altruísta e do interesse geral. É nesse jogo de posições invertidas que o verdadeiro político revela suas qualidades, ao conseguir desmobilizar a reação de defesa do eleitor, para então tentar persuadi-lo, e ganhar o seu voto. A publicidade de campanha tem que partir deste fato – a desconfiança do eleitor – e ser capaz de apresentar uma comunicação que seja por ele percebida não somente como atraente, mas também como verdadeira, bem intencionada e de interesse geral. As defesas do público em relação ao orador e seu discurso (pág. 2) Por essas razões, o político precisa estar preparado para superar a reação inicial de defesa e ceticismo, afim de que seus argumentos possam ser apreciados com boa vontade, ou pelo menos com razoável neutralidade. O político, mesmo em situações sociais, é percebido como alguém que está a se aproveitar de qualquer oportunidade, “para vender o seu peixe”, como se diz na linguagem popular. Ao falar sobre assuntos da realidade do seu público você pode conseguir atravessar aquele “muro” inicial de ceticismo Assim, o discurso político, a menos que seja feito para um público de “fiéis”, já previamente identificados com as ideias e a pessoa do orador, sempre enfrentará uma resistência silenciosa, que funciona como uma defesa contra a persuasão.

3. Depois de desmobilizar a desconfiança tem que derrubar a barreira de defesa do ouvinte Tendo sucesso em desmobilizar a desconfiança, o próximo passo é romper a barreira de defesa, condição indispensável para o discurso poder ter alguma eficiência persuasiva junto ao público. Como rompê-la? Às vezes não se consegue. São situações em que o orador tem a impressão que fala para um “muro”. Nesses casos, conclua seu discurso mais cedo, não aceite provocações, e encerre com elegância. Na maioria das vezes, porém, é possível rompê-la, senão para todos os integrantes do público, pelo menos para a maioria ou uma grande parte deles, e ainda, se possível, deixar uma dúvida razoável na cabeça dos que resistiram. Os políticos tendem a adotar a “oratória do bem comum” para transformar o seu interesse no voto do eleitor em interesse coletivo. O problema está em fugir da linguagem “bem comum” porque já foi e é demasiado usada e está gasta. O eleitor não entende nunca qual é “a sua parte” neste tão falado bem comum. O mais aconselhável é encontrar, desde logo, um problema que afeta àquelas pessoas, na qual estarão inevitavelmente interessadas, pela prioridade que atribuem a ele. É através dele que você começa o “desarmamento” do auditório. Por meio dele você estabelece uma base comum entre o que eles querem ouvir e o que você vai falar. Depois de explorar este caminho, tendo já conquistado o interesse deles, você então pode explorar outros assuntos, ainda que sempre cuidando para estabelecer uma relação entre eles, suas vidas, e a questão que você está abordando. Ao falar sobre assuntos da realidade do seu público você pode conseguir atravessar aquela barreira inicial de ceticismo e desconfiança, mostrando-se autenticamente interessado no problema deles. Seu discurso então poderá ser percebido como uma comunicação importante, cujo objeto vai muito além do seu interesse pessoal, levando as pessoas a ouvirem com atenção os seus argumentos. Se conseguir levar seu público a essa disposição você terá encontrado a forma de derrubar aquela barreira, o “muro de defesa”, que bloqueava o seu acesso à mente e ao coração deles.

Francisco Ferraz

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